Tatuagens: visão dermatológica

As tatuagens são expressões artísticas primitivas, havendo registros muito antigos que datam da Idade da Pedra (12000 a.C.).

Evidências arqueológicas encontradas na Europa, China, Japão e norte da África mostram que desde os primórdios da humanidade pessoas ornamentavam a pele com desenhos criados com pigmentos de plantas e minerais injetados com instrumentos pontiagudos de madeira e osso.

A tatuagem persistiu até os dias atuais, sendo usada por pessoas de diferentes culturas como forma de expressão artística, identidade sexual, identificação com determinado grupo etc. Muitas outras pessoas, no entanto, têm uma tatuagem somente com a finalidade de enfeitar o corpo e mostrar algo diferente naquela esperada hora de ir a uma festa, praia ou ao clube.

Na grande maioria, a tatuagem é usada por adolescentes que, ainda muito inexperientes, tomam esta decisão sem pensar na carreira profissional e nas conseqüências estéticas durante a velhice.

Inúmeras pesquisas indicam que mais da metade das pessoas que fazem tatuagens querem removê-la posteriormente.

Embora a maioria dos estudos psicologicos estejam restritos a pacientes psiquiatricos, prisioneiros em institutos correcionais e a pessoal militar (assim refletindo somente populações específicas), uma conclusão comum é que, de todos os motivos para fazer uma tatuagem, a busca da identidade pessoal é algo central. A pele serve de lona útil sobre a qual se retratam declarações de individualidade, sexualidade, bens, machismo, frustração, tédio, raiva, crenças e homenagens.

No entanto, a busca de identidade pelos adolescentes costuma tornar-se irrelevante ou embaraçosa aos 40 anos, e 50% ou mais dos indivíduos mais tarde lamentam suas tatuagens.

As múmias egípcias de 4000 a.C. mostram evidências de tentativas de remoção de tatuagens. Contudo, como a maioria das pessoas vive o momento presente, e não a antecipação de empreendimentos futuros, as tatuagens continuam populares.

Dados não publicados das companhias que desenvolvem lasers indicam que, em homens adultos, 9% a 11% nos EUA têm tatuagens e 50 mil a 100 mil mulheres buscam ativamente as tatuagens como arte corporal a cada ano.

Carregadas de significados, as tatuagens perpetuam na pele um momento especial, um amor e até uma convicção política. Mas o tempo passa, a vida muda e, em alguns casos, elas podem perder o significado que antes possuíam, passando a se tornar indesejáveis.

Até há alguns anos atrás a saída era apenas a retirada cirúrgica ou a dermoabrasão. Métodos ainda utilizados em alguns casos, apresentam limitações de acordo com o tamanho da tatuagem e a sua localização.

Além disso, como em qualquer cirurgia, há o problema das cicatrizes, que em locais como ombros e tórax, podem se tornar bastante inestéticas, inclusive com risco de formação de cicatrizes hipertróficas (elevadas).

Atualmente, já é possível apagar tatuagens utilizando-se o laser, método mais moderno para esta finalidade. O tratamento é feito em várias sessões, cujo número vai depender do tamanho da tatuagem, da profundidade do pigmento na pele e, também, da cores utilizadas nos desenhos.

A tinta negra é a cor mais utilizada, seguida pela azul, verde e vermelha e, depois, amarela e laranja. Tatuagens mais recentes apresentam uma maior variedade de cores, incluindo tons de rosa, roxo e cores fluorescentes. Nestes casos, para destruir seletivamente todas as cores da tatuagem pode ser preciso utilizar mais de um tipo de laser, pois cada laser atinge uma gama de cores específica.

As sessões não são totalmente indolores, mas o tratamento é bem suportado. Para atenuar o incômodo das aplicações pode ser utilizado um creme anestésico, que é aplicado no local uma hora antes da sessão.

No entanto, o tratamento não é mágico. Muitas vezes, não é possível remover toda a tatuagem, pois pigmentos mais profundos persistem deixando uma sombra do que foi a tatuagem. Em outros casos, após a remoção completa, a pele tratada fica mais clara do que a pele ao redor, como uma mancha esbranquiçada, que pode ser transitória ou não. Hiperpigmentação, ou seja, escurecimento local, também pode acontecer, deixando a pele mais escura que a pele não tratada.

Cuidado com o pigmento vermelho e marrom. Se foi utilizado o óxido de ferro como pigmento, muito comum em pigmentações de sobrancelhas, ele pode escurecer, tornando-se negro após o uso do laser.

A realização de tatuagens podem trazer além do arrependimento outras complicações como: reações alérgicas, com o surgimento de lesões eczematosas, granulomatosas e liquenoides no local da tatuagem; lesões causadas por inoculação; infecções como hepatite, HIV, tuberculose, sífilis, quando não realizados com agulhas descartáveis; mycobacterioses por contaminação das tintas; piodermites / impetigo e outras infecções bacterianas resultantes de má assepsia local. Além disso, pode ocorrer o surgimento de cicatrizes hipertróficas e queloidais.

Assim sendo, considerando suas complicações, que 50% ou mais das pessoas que fazem uma tatuagem desejam removê-la em algum momento da vida, que, devido ao preconceito, indivíduos tatuados podem não ser bem recebidos por algumas pessoas, que tatuagens costumam criar uma barreira ao emprego e que a remoção de tatuagens é um tratamento difícil, caro e demorado, seguem algumas dicas para quem deseja tatuar a pele:

  • Refletir bem sobre a decisão previamente.
  • Procurar um estúdio mais conhecido e idôneo possível, checar suas condições de higiene e se interar do modo que será realizado o procedimento.
  • Busque sempre profissionais capacitados e conceituados. Conheça o seu trabalho antes de se tatuar.
  • Verifique se o estabelecimento tem a aprovação da vigilância sanitária, peça para ver o documento.
  • Comece com uma tatuagem pequena. Fica mais fácil e barato para removê-la mais tarde.
  • Escolha um local de visualização restrita, que seja fácil de ser escondido pela roupa.
  • O pigmento preto e azul escuro são os mais fáceis de serem removidos.
  • Evite tatuagens multicoloridas, são de mais difícil remoção com laser.

Além disso, ter a noção do local e também do que está tatuando, pois pode nunca mais conseguir retirar. Qualquer sinal de inflamação ou alterações posteriores no local procure seu dermatologista.

Dra. Ana Carolina Antunes
Médica especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia
Pós Graduação em Dermatocosmiatria pela FMABC
Pós Graduação em Tricologia e unhas pela UMC
Preceptora do Serviço de Dermatologia da Universidade de Mogi das Cruzes